Histórias de Moradores de Santo André

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade.


História do Morador: Rafael Torres Fattibene
Local: São Paulo
Data: 02/04/2015





Vídeo: “Foi um divisor de águas na minha vida”


Sinopse:

Rafael em seu depoimento fala sobre sua infância agitada, por causa do emprego dos pais, e sobre como isso prejudicou um pouco sua atenção na escola. Fala sobre a filha que teve aos 18 anos, que nasceu com deficiência, e sobre as dificuldades que passou com ela. Hoje tem duas filhas, sendo uma de cada casamento.

Sempre atento a movimentos sociais, Rafael fala sobre seus empregos, e sua contratação para o projeto “Andrezinho Cidadão”, onde contribuiu no desenvolvimento de um projeto social, levando oficinas de audiovisual para comunidades carentes. Ele comenta sobre a importância do apoio do Criança Esperança ao projeto Cine Debate.

História

Meu nome é Rafael Torres Fattibene. Nasci em Santo André, São Paulo em 25 de julho de 1985. Meu pai é Antônio Paulo Fattibene e minha mãe é Nádia Torres Fattibene. Eles trabalham com convênios, são representantes comerciais. Tenho duas irmãs, duas irmãs mais velhas. A mais velha é a Bianca e a do meio, a Carol, Carolina e eu sou o caçula. Quando eu era criança minha mãe ficava mais em casa. Depois que a gente cresceu que ela começou a trabalhar fora. Família meio tradicional, antiga, da casa, dos filhos e meu pai na lida. Mas minha mãe também sempre fazia uma coisinha aqui outra ali.

Meu pai quando eu era criança, se eu não me engano, ele teve uma imobiliária, morava no interior. Morei muito no interior quando criança, morei um tempo no Nordeste também, Fortaleza. Aí ele já era representante, mas no interior ele chegou a ter uma imobiliária. Eu era pequeno. Eu tinha as dificuldades um pouco de escola, adaptação, essas coisas, mas também por outro lado eu tive a oportunidade de morar em Fortaleza, próximo da praia que era ótimo.

Com 15 anos eu comecei a participar de conferência lúdica de direito da criança e do adolescente, ele trabalhava em ONGs, ele era arte-educador também, ele fazia artesanato, oficina de artesanato. A gente ia à ONG que ele trabalhava, eu estudava no período da tarde, às vezes de manhã a gente ia à ONG que ele trabalhava fazer a oficina junto com as crianças, lá com ele, aprendi algumas coisas. Então foi com 15 anos quando eu voltei que eu parei de jogar bola, tudo, que eu vi que não ia dar muito certo, que eu comecei nessa área social, a participar com ele em algumas coisas.

Acho que foi um divisor de águas de um lado. Porque eu comecei a participar, ele levava a gente pra participar tanto nas atividades com as crianças, reuniões, conferências de direitos, então eu acho que ali é que eu comecei a ter outra visão do mundo, das coisas. Ele trabalhava com criança em situação de rua, tudo, então eu comecei a ver outra realidade, a gente ia buscar os meninos às vezes nas comunidades. Querendo ou não minha família nunca foi de ter dinheiro, mas tinha uma vida boa, tinha de tudo em casa, sempre morei em casas boas. Então eu comecei a ter contato com outra realidade, eu acho que ali foi mesmo o divisor de águas da minha vida, que eu vi que tem pessoas que não estão nessa realidade, mas que estão fazendo junto, fazendo por essas pessoas e fazendo junto. Eu comecei a ter essa consciência.

Minha primeira namorada, namorada mesmo foi aqui depois quando eu voltei, comecei com uns 17 anos, com 18 anos eu fui pai. Então ela engravidou. Foi um baque. Tinha 18 anos, ia terminar a escola e ela descobriu que estava grávida, a gente namorava, continuava morando com a mãe dela, eu com os meus pais. Com cinco meses no ultrassom a gente descobriu que a minha filha tinha uma deficiência. Ela nasceu com uma lesão na coluna, ela é cadeirante, ela anda na cadeirinha de roda, da cintura pra baixo ela tem essa deficiência. Quando ela nasceu eu fui morar junto com a mãe dela. Ela nasceu em abril, eu tinha 18 anos, em julho eu fiz 19, então eu era bem novo. Então também minha vida já deu outra mudada, porque eu fui morar junto, a responsabilidade, pagar aluguel, ter uma filha pra sustentar com uma necessidade especial, então eu tinha a questão dos tratamentos, tudo.

Então eu acabei me afastando um pouco também dos meus amigos, saí um pouco da área social, trabalhei em fábrica, trabalhei com instalação de PABX, central telefônica, porque eu tinha que correr atrás. Como a gente foi morar junto muito novo, a gente morou um tempo juntos, separou, voltou, até o final de 2009 nós vivemos juntos. Em 2009 não dava mais, eu saí, separei dela, a gente não chegou a ser casado, mas minha filha veio morar comigo, eu fui morar com os meus pais. Em 2009 eu fui morar com os meus pais e minha filha sempre comigo, a Sarinha. Depois disso eu casei de novo, vai fazer agora em agosto três anos que eu estou casado, tenho outra menininha de dois anos, a Manuela, que é uma figura também. A Manu fez dois anos agora em fevereiro e a Sarinha vai fazer 11, então elas têm uma diferença bem grande, mas a Manuela é xodó, na época até eu fiquei meio com ciúmes, tudo, mas foi tranquilo.

Trabalhei em lava rápido, esses trabalhos assim de adolescente. E eu estava começando nessa área social e eu tive que parar por causa da minha responsabilidade, então eu também ficava nos empregos, eu não era muito feliz, porque eu queria, sempre quis voltar pra essa área. Então eu ficava um tempo, começava a ficar meio de saco cheio, mas eu tinha minha responsabilidade, então até eu conseguir eu ia tentando me achar em algum lugar que me satisfizesse profissionalmente.

O Andrezinho Cidadão trabalha com abordagem de rua, crianças e adolescentes em situação de rua. Então são as crianças que ficam no semáforo fazendo malabares, vendendo bala, pedindo dinheiro. As crianças que estão na rua. Então o trabalho lá a gente fica o dia inteiro na rua e a gente aborda essas crianças, porque geralmente essas crianças não estão na escola, estão em situação de vulnerabilidade social, não voltam pra casa, ficam na rua. Então estão expostas a várias coisas. O nosso trabalho era o que? Era criar um vínculo com essas crianças e adolescentes na rua, então a gente passava sempre, conversava, brincava, às vezes levava jogos, tudo, e fazia criar um vínculo, pra que? Pra tentar descobrir a história dessas crianças, onde elas moram, por que elas estão na rua e a partir daí, quando a gente descobria o endereço, tal, às vezes a gente oferecia: “Deixa eu te levar pra casa”. Pra tentar descobrir da onde essa criança vinha e porque ela estava na rua. Quando a gente conseguia descobrir, tudo, entrava a equipe técnica do programa, a gente fazia uma visita domiciliar.

A gente trabalha geralmente em dupla, nunca sozinho, ou dois ou três, geralmente é duo. Então quando a gente descobria, criava esse vínculo, uma das pessoas dessa dupla ou os dois ia junto com a técnica do programa fazer a visita com a mãe, com o pai, com a avó, pra entender por que aquela criança está na rua. E a partir daí tentar levar essa criança de volta pra escola, que é o principal, que era trazer ela pra escola e a técnica junto com o pessoal do setor da prefeitura, da assistência social da prefeitura, do Creas, tal, inserir essas famílias em programas sociais, seja um bolsa aluguel, um bolsa família, algum programa social que essas crianças muitas vezes vão pra rua pra conseguir uma renda pra levar pra ajudar em casa. Então a família perde essa renda, mas tentar integrar em algum outro programa pra que a criança não perca o estudo dela. A gente tinha as camisetas do programa e crachás, sempre. Pra identificar, né? Porque a gente estava na rua conversando com as crianças, tudo, pra eles nos identificarem e também pra ficar mais fácil também perante até outras pessoas que de repente acontece alguma coisa e a gente tá trabalhando ali.

Eu trabalhei em dois períodos no Andrezinho, se somar eu trabalhei um ano e meio, um ano e oito meses, mais ou menos. E comecei a trabalhar num abrigo, uma instituição de acolhimento em Diadema, lá em São José. Então eu trabalhava de dia no Andrezinho, das oito às duas, e entrava às 18 no abrigo, ficava até as seis da manhã, mas trabalhava lá um dia sim, um dia não. O abrigo eu entrei lá também em 2010, é uma nova experiência porque você trabalha também com crianças e adolescentes, mas é outro processo porque eles moram na casa. Então ali a primeira vez que eu trabalhei lá eu não vou lembrar certinho, mas tinha em torno de uns 25 acolhidos, educandos. Então é uma rotina da casa, você serve jantar pra eles, coloca pra tomar banho, de manhã acorda pra ir pra escola, serve café-da-manhã. Então é como se fosse uma casa, seus filhos, só que você tem, 25 crianças e adolescentes de faixa etárias diferentes, de gêneros diferentes e com histórias de vida muito diferentes.

Antes de eu começar a trabalhar com o Instituto eu tinha um grupo que chamava Núcleo de Comunicação Marginal. A gente tinha um projeto que se chamava Sessão Fala Viela, então a gente fazia o que? A gente em São Bernardo tinha duas comunidades que eram no alojamento ali do Silvino e na Vila São José, a gente de domingo à noite estendia, montava um telão, um tecido, e fazia exibição de cinema, de filmes, só filmes nacionais. Então a gente fazia uma seleção de filmes não muito fortes, porque era aberto, era no meio da comunidade, então a gente começou com esse projeto. A gente começou a levar o cinema pra comunidade.

Esse foi um projeto paralelo que eu fazia junto. Que é um projeto do Leonardo Duarte e o Miguel Fernandes, que são dois parceiros meus. Eles tiveram essa ideia e me chamaram, a gente começou a fazer, mas era uma coisa que a gente fazia por conta. A gente começou a fazer e o Leonardo é fotógrafo e o Miguel trabalha, fazia faculdade e tudo, com artes visuais, tudo. Então a gente começou esse projeto de levar o cinema pra dentro da comunidade e a partir disso a gente começou a fazer oficinas, oficinas de fotografia e de cinema pros meninos das comunidades que a gente fazia exibição.

Então, domingo à tarde a gente fazia oficina num sábado, a gente ia sempre junto participar, eu digo eles porque eles que trabalham mais nessa área, mas a gente participava junto com as crianças da comunidade e fazia exibições de cinema com o intuito de levar mesmo a cultura pra essas crianças que já é tudo tão escasso dentro da comunidade. Então a gente vê muito às vezes a cena cultural dos municípios, tudo, é sempre centralizado, eles passam sempre no centro da cidade, são espaços que o pessoal da comunidade da periferia não tem acesso. Então a gente quis levar pra comunidade essas informações também.

Então o projeto parte mais ou menos desse fundamento. Quando eu entrei no Andrezinho, no Instituto Andrezinho, tinha no meu currículo que eu fazia esse trabalho e na época o Rui, que era o coordenador do Andrezinho, falou que ia ter o projeto, que o Criança Esperança estava atrás de projetos pra financiar. Sabia que eu trabalhava com isso e tinha o Mateus, que é um educador na época que a gente trabalhava junto, eu e ele sentamos e elaboramos mais ou menos um projeto, porque o Mateus participava com a gente lá no núcleo. Não era ativo, mas ele estava sempre presente, sempre que ele podia ele ia, tinha os compromissos dele. Então a gente elaborou um projeto mais ou menos nessa linha. A gente não ia fazer exibição de filmes, mas dentro dessa área de fazer oficina de cinema, de fotografia, o núcleo de comunicação depois a gente conseguiu aquele Ponto de Cultura. Então conseguiu financiamento pra produzir um documentário.

No Andrezinho quando o Rui chamou a gente pra escrever um projeto a gente imaginou em fazer um projeto relacionado ao cinema, mas não fazer documentários, fazer curtas, porque a gente tinha também uma educadora que trabalhava com a gente, a Helen que ela é formada em artes cênicas, tudo. Então a gente pensou em misturar um pouco essa questão do teatro e produzir alguns curtas, mas com os meninos manuseando, filmando, eles fazendo toda a produção e a gente junto apoiando.

A gente escreveu o esboço do projeto, eu e o Mateus, o Rui finalizou, fez lá do jeito que eles tinham pedido, montou a estrutura certinho e foi aprovado pelo Criança Esperança, se não me engano foi em 2010. Eu estava nesses dois trabalhos, no abrigo de noite, no Andrezinho de manhã e começou a ficar muito cansativo, muito puxado, eu acabei saindo do Instituto pra ficar no abrigo. Então eu participei da elaboração do projeto, mas quando foi começar eu não acompanhei. Em 2012 eu fui pro Andrezinho da segunda vez, fiquei mais oito meses, voltei pro abrigo, fiquei nos dois. Eu casei com a minha atual esposa, não dava pra ficar em dois empregos, tudo.

Ela estava trabalhando, a gente alugou a nossa casinha, tudo, a gente foi morar junto. Como a minha menina morava comigo, a mais velha, eu saí de novo do Andrezinho pra ir trabalhar à noite porque eu ficava com ela, pra fazer as coisas dela. Depois a minha esposa engravidou, tudo, continuei trabalhando lá no abrigo à noite. O Instituto que coordenava o Andrezinho, coordena ainda o Andrezinho, assumiu as casas de acolhimento aqui em Santo André, em dezembro do ano passado eles me chamaram, ligaram, falaram: “A gente está com um abrigo aqui, tal, você não quer vir trabalhar com a gente?”. Já me conheciam, tudo. Eu troquei o abrigo de Diadema pra vir trabalhar aqui em Santo André.

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