Um concurso nascido do entusiasmo nacional
O Centro Cívico de Santo André emergiu como consequência de um concurso arquitetônico promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), em um período repleto de otimismo no Brasil. Entre o sucesso da Copa do Mundo de 1958 e a inauguração de Brasília com sua proposta de modernidade, o arquiteto Rino Levi destacou-se ao levar adiante uma visão que excederia o modelo meramente institucional da capital federal.
Em contraste com a Praça dos Três Poderes, idealizada por Oscar Niemeyer com seu conceito de monumentalidade, Levi projetou um espaço que unisse governo, cultura, educação e convivência harmoniosa, permeado por elementos naturais e que incentivasse a circulação dos cidadãos.
Rino Levi e a Escola Paulista de Arquitetura
O arquiteto Rino Levi, que se formou em Milão na década de 1920, trouxe consigo a técnica precisa da tradição italiana, misturando-a com a ousadia inerente à Escola Paulista de Arquitetura. Sua vasta experiência na concepção de cinemas e teatros, como o Teatro Cultura Artística em São Paulo, forneceu-lhe o know-how necessário para implementar soluções acústicas que foram fundamentais tanto no Plenário da Câmara quanto no Teatro Municipal localizado no Centro Cívico.

De acordo com especialista Henrique Stachov, Levi era meticuloso a ponto de especificar detalhes que iam desde os parafusos estruturais até os mármores e granitos de origem italiana que foram utilizados na construção do espaço.
O paisagismo de Burle Marx e o Monumento ao Trabalhador
A responsabilidade pelo projeto paisagístico do Centro Cívico coube ao renomado Roberto Burle Marx, que colaborou estreitamente com Rino Levi. Stachov enfatiza a habilidade de Burle Marx em criar um paisagismo que mescla linhas reticuladas da tradição francesa com formas orgânicas características do Brasil. Elementos como mosaicos portugueses, espelhos d’água e curvaturas para direcionar os visitantes entre os edifícios proporcionam uma unificação entre o Fórum, a Prefeitura, a Câmara, a Biblioteca e o Teatro.
Após o falecimento de Levi, Burle Marx teve um papel essencial na consolidação e nos toques finais de elementos artísticos e paisagísticos do complexo, incluindo relevos na biblioteca e uma tapeçaria no edifício do Executivo. Ademais, o Centro Cívico abriga o Monumento ao Trabalhador, uma escultura em formato de fita, concebida por Tomie Ohtake, instalada em 2013 em homenagem à força trabalhadora de Santo André.
A Câmara Municipal: um edifício pensado para o cidadão
Um elemento marcante no edifício da Câmara Municipal é seu conceito arquitetônico, que permite que a estrutura “flutue” sobre pilotis, criando um espaço livre para a passagem de pedestres sob o edifício. Segundo Stachov, esse desenho representa os valores de acessibilidade e transparência, com uma entrada que convida o cidadão a se aproximar, em oposição à entrada mais formal do edifício do Executivo.
Internamente, o edifício é organizado por meio de cinco escadas que conectam diversos setores, distinguindo a área administrativa (de acesso livre), os gabinetes dos vereadores (cobertos por brises-soleil que proporcionam sombra e privacidade) e o Plenário, que é iluminado de forma a favorecer a acústica e o debate entre os parlamentares. De acordo com o Artigo 1º do Regimento Interno da Câmara Municipal de Santo André (CMSA), a Câmara tem como sede “edifício próprio, situado no Centro Cívico de Santo André”, estabelecendo assim uma forte relação entre a instituição legislativa e seu espaço de atuação.
Santo André ao redor do Centro Cívico
Stachov recorda que anteriormente ao concurso, o terreno onde o Centro Cívico se encontra era uma praça sem vegetação. Durante as décadas de 1920 e 1930, a área era ocupada por chácaras de famílias que buscavam um refúgio da agitação da cidade costeira de Santos.
Com o crescimento de Santo André como um centro urbano e industrial durante o século XX, particularmente após a transferência da sede municipal no final da década de 1930 e o desmembramento que levou à formação de outros municípios na região, o espaço se tornou central, interligando importantes rotas entre Santo André, São Caetano e São Bernardo. O Centro Cívico simbolizou essa centralidade, unindo as funções públicas em um contexto de Santo André como um destacável polo industrial do ABC.
Um patrimônio para ser usado
Finalizando o podcast, Stachov compartilhou uma importante reflexão: a preservação do Centro Cívico deve ser interpretada não como um convite à inércia, mas como um estímulo ao uso ativo do espaço.
“É necessário utilizá-lo como um local para encontros, reivindicações e atividades culturais.”
– Henrique Stachov, professor e pesquisador da Fundação Santo André.
Ele destaca que a praça que conecta os edifícios continua a ser um palco vibrante para manifestações, celebrações e eventos culturais, conforme imaginou Rino Levi.
A importância da preservação do Centro Cívico
A preservação do Centro Cívico não se resume a protegê-lo do desgaste do tempo, mas sim em mantê-lo vivo e integrado à vida da comunidade. A interação contínua da população com o espaço serve como um testemunho da relevância cultural e social do Centro, reforçando seu papel como um núcleo de atividade e convivência no coração de Santo André.
As atividades que ocorrem ao longo do ano, incluindo mostras artísticas, debates e feiras, são exemplos concretos de como esse patrimônio arquitetônico pode contribuir não apenas para a beautificação da cidade, mas também para a promoção de um sentido de pertencimento e coletividade entre os cidadãos.
Eventos e atividades no Centro Cívico
O Centro Cívico não é apenas um monumento à arquitetura, mas serve ativa e integralmente como um centro de eventos. A cada ano, diversas festas e celebrações são organizadas em sua praça, promovendo a cultura e o entretenimento local. De festivais de música a feiras de artesanato, o espaço se transforma em um ponto de encontro que proporciona interação social e diversión para todos os cidadãos.
As sessões da Câmara Municipal, abertas ao público, traduzem a acessibilidade do local, permitindo que os cidadãos não apenas observem, mas participem ativamente da política municipal.
O legado de Rino Levi na arquitetura brasileira
Rino Levi não apenas deixou sua marca em Santo André, mas influenciou a arquitetura brasileira como um todo. Sua abordagem inovadora e integrada revolucionou a forma como espaços públicos podem ser projetados para criar ambientes que não só atendem a necessidades funcionais, mas também cultivam um senso de comunidade.
Com seus projetos, Levi demonstrou como a arquitetura pode dialogar com o entorno, promovendo a convivência harmoniosa e respeitando o patrimônio cultural. Hoje, a sua obra é estudada por novas gerações de arquitetos, que olham para Levi como um modelo a ser seguido.
Visite o Centro Cívico: Um convite à cidadania
O Centro Cívico de Santo André continua sendo um espaço aberto e acessível a todos. As visitas ao local, assim como a participação nas sessões da Câmara, são estimuladas, reforçando o papel do cidadão na vida política e cultural da cidade. O ambiente é agradável e acolhedor, tornando-se um convite à cidadania e à prática democrática.
Para aqueles que desejam conhecer mais sobre a história arquitetônica e cultural de Santo André, o Centro Cívico é um ponto de partida fundamental. A presença histórica e a continuidade de sua utilização servem como exemplo de como manter viva a memória de um lugar, ao mesmo tempo que se abre espaço para o presente e o futuro.
